- A pergunta e a referência
- Fontes de dados
- Tabelas transcritas do Strata (2017)
- Cálculo derivado: Itaipu e Balbina
- Conversão de unidades
- Código: gráfico do sítio da usina
- Código: gráfico do ciclo completo
- Como reproduzir
- Limitações e ressalvas
- Pontos frágeis desta demonstração
1. A pergunta e a referência
Quanto terreno é necessário, por fonte de energia, para gerar a mesma quantidade de eletricidade que uma usina a carvão de 1 GW de potência nominal? A pergunta parece simples, mas exige uma escolha cuidadosa de unidade de comparação. Comparar usinas pela placa (potência nominal) é enganoso — uma turbina eólica de 3 MW não entrega 3 MW continuamente; entrega, na média anual, cerca de 1 MW. Por isso fixamos a geração anual, não a potência instalada.
Em potência contínua média, a referência equivale a 550 MW. Toda a comparação é construída a partir desse número: para cada fonte, perguntamos "quantos km² são necessários para entregar 550 MW de geração contínua?".
2. Fontes de dados
Os coeficientes de "área por MW gerado" — o número que multiplicamos por 550 para obter os km² no eixo horizontal — vêm do relatório:
O Strata é uma agregação de fontes oficiais americanas — não é uma medição primária. Ele consolida valores que estão pulverizados em diferentes relatórios técnicos:
- NREL — National Renewable Energy Laboratory: solar PV utility-scale e eólica onshore
- EIA — Energy Information Administration: capacidade e fator de capacidade de carvão e gás
- NRC — Nuclear Regulatory Commission: reatores e armazenamento ISFSI
- USACE / USBR — Corps of Engineers e Bureau of Reclamation: 338 grandes hidrelétricas dos EUA
- USGS — Geological Survey: minas de carvão e urânio, areia de fraturamento, quartzo para painéis
Para as duas hidrelétricas brasileiras citadas (Itaipu e Balbina), o Strata não tem dado. Calculamos diretamente a partir de dados públicos:
Balbina (Eletronorte): 250 MW nominais, ~0,38 TWh/ano, reservatório de 2.360 km². Fonte: ANEEL / Eletrobras.
3. Tabelas transcritas do Strata (2017)
O Strata reporta tudo em acres por MW efetivamente gerado — isto é, o fator de capacidade já está embutido no denominador. Reproduzimos abaixo as duas tabelas centrais usadas pelos scripts.
3.1 Sítio da usina (apenas a planta)
| Fonte | acres / MW gerado |
|---|---|
| Gás natural (CCGT) | 0,343 |
| Carvão | 0,699 |
| Nuclear | 0,901 |
| Solar PV (utility) | 31,347 |
| Eólica (onshore) | 60,000 |
| Hidro — média de 338 plantas dos EUA | 237,55 |
3.2 Ciclo completo do combustível
Inclui planta + extração de recursos + armazenamento de resíduos. Não inclui a malha de transmissão — é infraestrutura compartilhada, não atribuível a uma fonte específica.
| Fonte | Composição (acres/MW) | Total |
|---|---|---|
| Gás natural | planta 0,343 + poços 1,280 + areia frac 0,381 | 2,004 |
| Carvão | planta 0,699 + minas 0,720 + cinzas 0,479 | 1,898 |
| Nuclear | planta 0,901 + mina U 1,420 + ISFSI/LLW 0,071 | 2,392 |
| Solar PV | planta 31,347 + quartzo 0,143 + manuf. 1,836 + e-waste 0,042 | 33,368 |
| Eólica | planta 60,000 + neodímio 0,279 | 60,279 |
| Hidro (EUA) | reservatório 237,55 + agregado de concreto 67,36 | 304,91 |
4. Cálculo derivado: Itaipu e Balbina
A fórmula é a mesma: área do reservatório dividida pela potência contínua média.
def compute_itaipu_km2_per_mw():
annual_twh = 90.0
reservoir_km2 = 1350.0
continuous_mw = annual_twh * 1e6 / 8760 # TWh -> MWh/ano -> MW continuo
return reservoir_km2 / continuous_mw
def compute_balbina_km2_per_mw():
annual_twh = 0.38
reservoir_km2 = 2360.0
continuous_mw = annual_twh * 1e6 / 8760
return reservoir_km2 / continuous_mwResultado: Itaipu ≈ 0,131 km²/MW, Balbina ≈ 54,4 km²/MW. A diferença de quase três ordens de magnitude entre as duas é o cerne da história — o conceito de "energia hidrelétrica" sem qualificação esconde realidades absolutamente opostas.
Para o gráfico de ciclo completo, somamos a área de extração de agregados de concreto. Itaipu usou ~12,3 milhões de m³ de concreto; Balbina, ~3 milhões. A conversão usa o coeficiente do próprio Strata (0,0085 acres por tonelada de agregado):
concrete_tons = concrete_m3 * 2.3 # densidade do concreto ~2,3 t/m^3
concrete_acres = concrete_tons * 0.0085 # acres por tonelada (Strata)
concrete_km2 = concrete_acres * ACRE_TO_KM25. Conversão de unidades
Todo o relatório Strata está em acres / MW gerado. Convertemos para km² e multiplicamos pela referência de 550 MW contínuos:
ACRE_TO_KM2 = 0.00404686
REF_MW_CONTINUOUS = 1000 * 0.55 # 1 GW x 55% CF = 550 MW continuos
area_km2 = (acres_per_mw * ACRE_TO_KM2) * REF_MW_CONTINUOUS6. Código: gráfico do sítio da usina
Script completo em Energy/land use/scripts/build_plant_area_comparison.py. As partes essenciais:
"""
Plant-only land area to match a 1 GW coal plant (55% CF -> 4.82 TWh/year).
"""
from pathlib import Path
import pandas as pd
import matplotlib.pyplot as plt
HERE = Path(__file__).parent
ROOT = HERE.parent
OUT_CSV = ROOT / "data" / "plant_area_vs_coal.csv"
OUT_PNG = ROOT / "plots" / "plant_area_vs_coal.png"
STYLE = ROOT.parent.parent / "vintage.mplstyle"
REF_MW_CONTINUOUS = 1000 * 0.55
ACRE_TO_KM2 = 0.00404686
SOURCES = [
("Natural gas (CCGT)", 0.343 * ACRE_TO_KM2),
("Coal (reference)", 0.699 * ACRE_TO_KM2),
("Nuclear", 0.901 * ACRE_TO_KM2),
("Solar PV (utility)", 31.347 * ACRE_TO_KM2),
("Wind (onshore)", 60.000 * ACRE_TO_KM2),
("Hydro - Itaipu-class", compute_itaipu_km2_per_mw()),
("Hydro - US large avg", 237.55 * ACRE_TO_KM2),
("Hydro - Balbina-class", compute_balbina_km2_per_mw()),
]
def build_dataframe():
rows, coal_km2 = [], None
for name, km2_per_mw in SOURCES:
area_km2 = km2_per_mw * REF_MW_CONTINUOUS
rows.append({"source": name,
"km2_per_mw": km2_per_mw,
"area_km2": area_km2})
if name.startswith("Coal"):
coal_km2 = area_km2
df = pd.DataFrame(rows)
df["multiplier_vs_coal"] = df["area_km2"] / coal_km2
return df.sort_values("area_km2").reset_index(drop=True)
def save_plot(df):
plt.style.use(str(STYLE))
fig, ax = plt.subplots(figsize=(10, 6.5))
coal_km2 = df[df["source"].str.startswith("Coal")].iloc[0]["area_km2"]
hatches = []
for src in df["source"]:
if src.startswith("Hydro"): hatches.append("///")
elif src.startswith("Coal"): hatches.append("xxx")
elif src in ("Wind (onshore)", "Solar PV (utility)"):
hatches.append("...")
else: hatches.append("")
bars = ax.barh(range(len(df)), df["area_km2"],
color="white", edgecolor="black", linewidth=0.9)
for bar, h in zip(bars, hatches):
bar.set_hatch(h)
ax.set_yticks(range(len(df)))
ax.set_yticklabels(df["source"])
ax.set_xscale("log")
ax.set_xlabel("Land area (km^2) -- log scale")
ax.axvline(coal_km2, color="black", linestyle=":", linewidth=0.7)
fig.savefig(OUT_PNG, dpi=300, bbox_inches="tight")
plt.close(fig)
if __name__ == "__main__":
df = build_dataframe()
df.to_csv(OUT_CSV, index=False)
save_plot(df)
///, carvão xxx, renováveis intermitentes .... A linha pontilhada vertical marca a referência do carvão.7. Código: gráfico do ciclo completo
Script em Energy/land use/scripts/build_lifecycle_area_comparison.py. A diferença em relação ao anterior está em duas coisas: (a) SOURCES usa os totais da Tabela 3.2 (planta + extração + resíduos), e (b) Itaipu e Balbina recebem o termo de concreto.
def itaipu_lifecycle_km2_per_mw():
annual_twh = 90.0
reservoir_km2 = 1350.0
concrete_m3 = 12.3e6
continuous_mw = annual_twh * 1e6 / 8760
reservoir = reservoir_km2 / continuous_mw
concrete_tons = concrete_m3 * 2.3
concrete_acres = concrete_tons * 0.0085
concrete_km2 = concrete_acres * ACRE_TO_KM2
return reservoir + concrete_km2 / continuous_mw
SOURCES = [
("Natural gas (CCGT)", 2.004 * ACRE_TO_KM2),
("Coal (reference)", 1.898 * ACRE_TO_KM2),
("Nuclear", 2.392 * ACRE_TO_KM2),
("Solar PV (utility)", 33.368 * ACRE_TO_KM2),
("Wind (onshore)", 60.279 * ACRE_TO_KM2),
("Hydro - Itaipu-class", itaipu_lifecycle_km2_per_mw()),
("Hydro - US large avg", 304.91 * ACRE_TO_KM2),
("Hydro - Balbina-class", balbina_lifecycle_km2_per_mw()),
]O bloco de plotagem é idêntico ao do script anterior — só muda a fonte dos dados.

8. Como reproduzir
# Pré-requisitos
pip install pandas matplotlib
# Estrutura esperada (ja existe no repo Plotter)
Plotter/
+-- vintage.mplstyle
+-- Energy/
+-- land use/
+-- scripts/
| +-- build_plant_area_comparison.py
| +-- build_lifecycle_area_comparison.py
+-- data/
+-- plots/
# Executar
cd Plotter/Energy/land\ use
python scripts/build_plant_area_comparison.py
python scripts/build_lifecycle_area_comparison.py
# Saidas geradas:
# data/plant_area_vs_coal.csv
# data/lifecycle_area_vs_coal.csv
# plots/plant_area_vs_coal.png
# plots/lifecycle_area_vs_coal.png9. Limitações e ressalvas
- Strata é EUA-cêntrico. Os fatores de capacidade de eólica e solar refletem condições típicas dos Estados Unidos. Em regiões mais áridas (Atacama, Saara) o solar entrega mais; no norte europeu, menos. Os números relativos não mudam muito, mas o leitor deve evitar extrapolações precisas para outras geografias.
- O fator de capacidade do carvão (55%) é deliberadamente baixo. Plantas modernas operam acima de 70%; usamos 55% por refletir a média atual da frota americana, que opera em load-following. Para comparar com 75% CF basta mudar uma linha (
REF_MW_CONTINUOUS = 1000 * 0.75) — todas as proporções relativas permanecem. - Transmissão excluída. Renováveis precisam, em média, de muito mais quilômetros de linha por MWh entregue (parques eólicos longe dos centros de consumo). Incluir a transmissão pioraria ainda mais a posição relativa de eólica e solar.
- Hidrelétrica é ambígua por natureza. O reservatório serve também a controle de cheias, irrigação, abastecimento e navegação. Atribuir 100% da área à geração elétrica é uma simplificação. A faixa Itaipu–Balbina (0,1 a 54 km²/MW) ilustra que "hidrelétrica" não é uma categoria homogênea — é um intervalo de duas ordens de magnitude.
- Densidade não é a única métrica. Este tutorial não trata emissões, custo nivelado, despachabilidade, ou impactos sobre vida selvagem. É um corte específico — uso de terra — útil para contrapor a ideia de que renováveis são, em todos os sentidos, "menos invasivas".
10. Pontos frágeis desta demonstração
Em revisão crítica, três pontos da metodologia merecem ser explicitados ao leitor — não para invalidar o gráfico, mas para que ninguém aceite os números como definitivos sem entender suas fragilidades.
10.1 O termo de concreto de Itaipu e Balbina (ciclo de vida) está provavelmente superestimado
No gráfico de ciclo completo, somamos à área do reservatório o terreno extraído para produzir o concreto da barragem. A conta usa o coeficiente do próprio Strata (0,0085 acres por tonelada de agregado):
12,3M m^3 x 2,3 t/m^3 x 0,0085 acres/ton = 240.500 acres = 973 km^2 de pedreiraOcorre que 973 km² de pedreira para Itaipu não é um número fisicamente realista — pedreiras reais para uma obra dessa dimensão historicamente totalizam algo na ordem de 5 a 20 km². O coeficiente 0.0085 acres/ton vem da média americana de mineração de agregado e provavelmente inclui overburden, estradas de acesso, pilhas de estoque e lagoas de processo; pode também estar expresso como "acres por tonelada anual de produção", e não cumulativa. Em qualquer dos casos, estamos misturando uma taxa empírica norte-americana com o volume bruto de concreto de uma obra brasileira específica. Esse termo isolado infla Itaipu de 72 km² (sítio) para ~124 km² (ciclo) — o salto vem de um cálculo questionável, e não de medição direta.
10.2 Strata é uma agregação norte-americana
Os fatores de capacidade incorporados nos coeficientes refletem condições e práticas operacionais dos Estados Unidos. O nuclear americano opera a ~92% de fator de capacidade; o brasileiro, a ~80%. O eólico onshore americano gira em ~35%; o europeu, em ~25%. As ordens de grandeza relativas se preservam, mas extrapolações finas para outras geografias exigem ajuste — o gráfico não deve ser lido como universal.
10.3 O fator de capacidade do carvão (55%) é defensável, mas debatível
A frota americana atual de carvão opera nessa faixa por causa do load-following imposto pela competição com gás barato. Tecnicamente, o carvão pode operar a 75–85% de CF, e historicamente o fazia. Se o leitor preferir comparar com 75% CF, basta mudar uma linha do script (REF_MW_CONTINUOUS = 1000 * 0.75) — todas as proporções relativas entre fontes permanecem, porque o fator multiplica todas as áreas igualmente. O que muda é apenas o tamanho absoluto da referência.