ABSTRACT

     Há uma desconexão entre a ciência e a politica quando se trata da resolução de problemas. Normalmente os problemas científicos exigem calma e análise minuciosa, na maioria das vezes deparando-se com impasses que não contém uma resposta absoluta. A política por outro lado exige soluções imediatistas, independente se as causas e consequências foram propriamente identificadas. Essa é a desvantagem de colocar problemas científicos nas mãos de políticos, os mesmos tentarão resolve-lo, ou pelo menos passar a sensação de que estão o fazendo, mesmo que não haja a menor possibilidade para tal. No texto de hoje vamos analisar esse impasse enquanto a solução proposta para conter a mudança do clima na Terra, a transição energética. 

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    Antes de começar a leitura devemos ter em mente as seguintes premissas

    1. O clima muda, e sempre mudou, de forma amplamente estocástica.

    2. O homem tem influência no sistema climático, desde a emissão de aerossóis quanto gases estufa.

    3. A Terra vem aquecendo nos últimos 150 anos, e é provável que tenhamos contribuído para tal.

    As premissas 2 e 3 são proliferadas por diversos órgãos nacionais e internacionais, sempre acompanhadas de mais uma premissa:

    4. "Portanto, devemos nos livrar de todas as fontes de emissão de gás carbônico"

   Richard Lindzen se refere a essas declarações como "two fundamental statements followed by an extreme conclusion". Sem nenhum sentido, conclui-se que devido o aumento das temperaturas registradas, e da possível influência humana, deve-se endividar o mundo aos trilhões para resolver uma crise que nem sequer existe. 

   Sim, repito, uma crise inexistente.

   Primeiramente, abordemos o significado da palavra "crise". Do grego krísis, se refere a decisão ou separação, Hipócrates a utiliza pela primeira vez em Aforismos no seguinte contexto "Durante a crise, não se deve provocar nenhum movimento nem com purgas nem com outros medicamentos irritantes, mas sim deixar a natureza agir." [1], Hipócrates usava o termo para o momento exato em que uma doença mudava de rumo. Era o ponto crítico em que o paciente começava a melhorar ou piorar. Exigia-se um diagnóstico definitivo, ou uma decisão. Aristóteles utilizou a palavra em Politica, Livro 1 "A justiça é uma coisa da pólis; pois o direito (díkē) é a ordenação da comunidade política, e a decisão judicial (krísis) é a determinação do que é justo." [2] também se referindo a um momento crítico de decisão, tomada com cuidado.

   Atualmente a palavra "crise" carrega um significado tangencial, ao invés de se referir diretamente ao ato de decidir cuidadosamente, a atenção volta-se aos desastres que fundamentam a necessidade de decisão. Ao escuta-la pensamos na quebra das bolsas de 1929 e 2008, na crise do petróleo de 1973, na inflação brasileira dos anos 90, e diversos outros eventos que foram carregados de dor e sofrimento, mas nunca pensamos necessariamente na solução de tais problemas. Esses momentos categorizados como crises marcam algo que já não é mais o que era, e exige uma mudança no rumo das coisas, no entanto tal mudança deve sempre visar a melhoria em relação ao estado atual das coisas. Se há uma agenda que busca trocar toda a base que sustenta qualidade de vida mais rica da história da humanidade, devido a declaração de uma crise, deve-se perguntar duas coisas:

1. Quais os motivos da declaração da crise?

2. Se realmente há uma crise, a solução proposta terá efeitos positivos?

Abertura da página "O que é a mudança climática?" da ONU
Abertura da página "O que é a mudança climática?", das Nações Unidas. O texto define: "Mudanças climáticas referem-se a alterações de longo prazo nas temperaturas e nos padrões climáticos. Essas alterações podem ser naturais, devido a mudanças na atividade solar ou a grandes erupções vulcânicas. Mas, desde o século XIX, as atividades humanas têm sido o principal fator de mudança climática, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás." Fonte: Nações Unidas, Ação Climática [3].
Verbete "climate crisis" no Cambridge Dictionary
Verbete climate crisis no Cambridge Dictionary. A definição registrada é "serious problems that are being caused or likely to be caused by changes in the world's weather, in particular the world getting warmer as a result of human activity increasing the level of carbon dioxide in the atmosphere" — problemas sérios causados, ou provavelmente causados, por mudanças no clima do mundo, em particular o aquecimento resultante da atividade humana que eleva o nível de gás carbônico na atmosfera. Fonte: Cambridge Dictionary [4].

      Antes de responder as duas perguntas, devemos verificar com quais conceitos estamos lidando. Segundo a definição da própria ONU, a mudança climática pode ser causada por fenômenos relacionados ou não a nossas emissões, especificamente se tratando de mudanças nas tendências de longo prazo (pois uma das definições formais de clima envolve a média de 30 anos do que se classifica como Climatempo ou "Weather"). Até aqui a mudança do clima ocorreria de qualquer forma, com ou sem nossa presença, porém a nota que segue é que "atividades humanas tem sido o principal fator" dessa recente mudança no clima (desde 1950 aos dias atuais). Notem que a influência é definida como "principal", porém não há um número que a quantifique, visto que num sistema como o clima não há essa possibilidade. Um pode se perguntar o porquê de ser considerada a principal causa, tendo em vista que não há métodos de metrificação. Compartilho da mesma dúvida.

     Não há alarmismo ou sequer um sinal de perigo perante o conceito apresentado, até então enquadra-se no que sempre foi, porém a crise climática, segundo Cambridge Dictionary, engloba sérios problemas, que podem ou não, estar ligados a nós como causa. Parece que todos aqueles que apresentam o conceito tanto de clima quanto de crise do mesmo, evitam de qualquer maneira nos cravar como causa, e o fazem bem, visto que ninguém tem a capacidade para tal. Ao colocar ambos os conceitos lado a lado, revela-se uma incerteza quanto a causa e efeito, mas principalmente a quantidade. Lord kelvin declara sabiamente que "When you can measure what you are speaking about, and express it in numbers, you know something about it. But when you cannot measure it... your knowledge is of a meagre and unsatisfactory kind."

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Área da planta vs carvão
Área da usina (apenas o sítio). Quilômetros quadrados necessários para igualar a geração anual de uma usina a carvão de 1 GW operando a 55% de fator de capacidade (4,82 TWh/ano), considerando somente o terreno ocupado pela planta — exclui minas, ciclo do combustível e linhas de transmissão. Eixo horizontal em escala logarítmica. Gás natural (CCGT) e nuclear ocupam frações da área do carvão; solar fotovoltaica utility-scale exige cerca de 45× mais terreno; eólica onshore, ~86×; e a hidrelétrica média norte-americana, ~340×. Itaipu aparece como caso de eficiência relativa entre as hidrelétricas; Balbina, no extremo oposto, ilustra a pior densidade energética conhecida. Fonte: Strata (2017), The Footprint of Energy; Itaipu e Balbina calculadas a partir da área do reservatório dividida pela geração anual média.
Área de ciclo de vida vs carvão
Área do ciclo de combustível completo. Mesma referência (1 GW de carvão, 4,82 TWh/ano), agora somando à planta os terrenos ocupados por extração de recursos (minas de carvão e urânio, poços de gás, areia de fraturamento, quartzo para painéis, neodímio para turbinas) e armazenamento de resíduos (cinzas, ISFSI, e-waste). A transmissão é excluída por ser infraestrutura compartilhada. Quando o ciclo inteiro entra na conta, a vantagem aparente do gás se dissolve (gás iguala o carvão), o nuclear sobe modestamente, mas solar e eólica permanecem 18× e 32× mais intensivas em terra que o carvão. Concreto da hidrelétrica de Itaipu (12,3 milhões de m³) e de Balbina (~3 milhões de m³) somados via área de extração de agregados. Fonte: Strata (2017).

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Califórnia: preço vs renováveis
Preço: série EIA SEDS ESRCD (residencial, nominal $/MMBtu), convertida para centavos/kWh e deflacionada pelo FRED CPIAUCSL para USD de 2020. Participação na geração: EIA Form 923/906/920 "Net Generation by State" (apenas usinas utility-scale; PV em telhados não incluído).
Alemanha: preço vs renováveis
Preço: BDEW 1998+ (residência de 3.500 kWh/ano, incluindo taxas/encargos/IVA); 1990 Udo Leuschner, 1991-1997 was-war-wann.de (tarifas em DM arredondadas, metodologia não idêntica à da BDEW). Deflacionado pelo FRED DEUCPIALLAINMEI para € de 2020. Participação na geração: Our World in Data (Ember).
Reino Unido: preço vs renováveis
Índice de preço: DESNZ "Historical electricity data since 1920"; componente eletricidade do CPI da ONS em termos reais (base 2010=100). Participação na geração: Our World in Data (Ember / Energy Institute).

10.3 O choque de 2022 expõe a dependência estrutural de gás criada pela Energiewende

O salto vertical em 2021-2022 vem mecanicamente do gás natural russo, mas isso não isenta a Energiewende — pelo contrário, é a consequência direta dela. Solar e eólica são intermitentes por natureza física: à noite, sem vento, em dias nublados de inverno, simplesmente não geram. Toda a estrutura precisa, então, de um combustível-pivô capaz de ligar e desligar rápido para fechar o balanço — e na Alemanha esse pivô é o gás natural. Quanto mais solar e eólica entram no sistema, mais horas no ano dependem do gás para não apagar. E o preço de atacado europeu é determinado pelo combustível-marginal: quando o gás triplica, o atacado triplica, e a conta vai para o consumidor.

Em outras palavras: a Alemanha construiu um sistema elétrico cuja estabilidade está amarrada a um combustível fóssil importado. Esse arranjo é parte do desenho da Energiewende, não um acidente externo a ela. O choque de 2022 não é uma crise contra a transição renovável; é uma demonstração do que acontece quando a transição renovável encontra a realidade física de que solar e eólica não despacham sozinhas.

Sobre isso o Atomausstieg agrava: o desligamento nuclear retirou do sistema a única fonte despachável de baixa emissão e baixo custo marginal que a Alemanha tinha. Sem o nuclear, a fração de horas em que o gás é o combustível-marginal aumenta, e portanto a sensibilidade do atacado a choques de gás aumenta. O leitor pode escolher como atribuir as responsabilidades — quanto da exposição ao gás é "renovável intermitente" e quanto é "decisão de fechar o nuclear" — mas as duas decisões compõem o mesmo programa político e produzem, juntas, a vulnerabilidade visível no gráfico.

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Bibliografia

[1]. Hipócrates, Aforismos, Seção I, af. 20. Na tradução de Francis Adams: "When things are at the crisis, or when they have just passed it, neither move the bowels, nor make any innovation in the treatment". Algumas edições numeram a passagem como af. 21.

[2]. Aristóteles, Política, Livro I, cap. 2 (Bekker 1253a37-39). Na tradução de Benjamin Jowett: "But justice is the bond of men in states, for the administration of justice, which is the determination of what is just, is the principle of order in political society".

[3]. Nações Unidas, Ação Climática, O que é a mudança climática? https://www.un.org/en/climatechange/what-is-climate-change

[4]. Cambridge Dictionary, verbete climate crisis. https://dictionary.cambridge.org/us/dictionary/english/climate-crisis