“Minha quarta afirmação é: as mudanças climáticas existem… e são causadas por humanos” [01:03:25]
Minha primeira afirmação é: "as mudanças climáticas existem… e isso é uma tautologia". Independente da definição de Clima escolhida [2], todas portam a característica dinâmica do sistema. Afirmar que o clima muda é equivalente a afirmar que peixes nadam. Porém a atribuição da mudança aos humanos é, no mínimo, complicada. Mas iniciamos em concordância, o clima muda, sempre mudou, e mesmo que de um dia deixemos de existir, continuará mudando. E como afirmo isso com tanta certeza? Bom, é valido informar que nós temos a possibilidade de investigar o clima do passado, a partir de diversas fontes, sendo a mais confiável a fonte instrumental (termoscópio, termômetro etc.), mas esse registro começa apenas em 1659 (Central England Temperature) e cobre somente mudanças locais.
Além da medida direta de temperatura, temos as proxies, registros independentes e empíricos acumulados ao longo do tempo. Essa área de estudo chama-se paleoclimatologia; analisam evidências geológicas e composição química de anéis de árvore, estratos de gelo, pedaços de rochas, fósseis de plantas e animais, etc. Não são tão confiáveis quanto termômetros mas ajudam no entendimento, e as utilizando podemos reconstruir uma aproximação das condições climáticas de bilhões de anos atrás. A terceira fonte de reconstrução do clima (e minha preferida) é a Climatografia, onde estima-se a temperatura e quadro meteorológico de regiões diversas a partir de evidências e registros históricos: sítios arqueológicos, registros agrícolas, registros fenológicos, anotação de datas de quebra e congelamento lacustre, dados portuários, cartas, crônicas, pinturas, diários de bordo etc. Esse tipo de fonte é utilizada para averiguarmos a confiabilidade das evidências paleoclimáticas (e vice versa em alguns casos).
Portanto, temos noção de como era o clima antes e depois do surgimento da raça humana. E aqui cabe a primeira questão: Antes de nós o clima não mudava? A resposta é óbvia, mudava de forma tão brusca e variável quanto hoje, sem nenhuma contribuição de nossa existência.
Em 2003 o ganhador do prêmio "Young Scientist of the Year", o astrofísico da Universidade Hebraica de Jerusalém, Nir Shaviv, publicou junto do proeminente geólogo Jan Veizer [3], um estudo que correlacionava as reconstruções paleoclimáticas de temperatura e CO2 nos últimos 545 milhões de anos (Imagem 1), visando verificar se essas duas variáveis tiveram relação ao longo da história terrestre.

Nota-se claramente pelas curvas de baixo [3/6 , 5/10] (Isótopos de Oxigênio 18 calculados a partir de fósseis marinhos) [4], indicando a temperatura dos oceanos, que a variabilidade climática se fez presente em tempos frios e quentes, além de se correlacionar muito mal com os níveis de CO2 [GEOCARB III] (curvas de cima, calculadas a partir de fósseis de plantas e solos antigos) [5]. Haviam tempos em que a concentração de CO2 na atmosfera era 10 vezes maior (períodos Ordoviciano, Siluriano, e Jurássico), e mesmo assim o planeta virou uma bola de neve. E o contrário também ocorreu, níveis de dióxido de carbono em queda, e temperaturas em ascensão (Carbonífero, Cretáceo…). Essa é a premissa que deve levantar outra questão: "Qual o período histórico, e em que lugar do globo, o CO2 já regeu as temperaturas terrestres?", pois se essa correlação não existiu nos últimos milhões de anos, por que hoje a seria a causa? Para afirmarmos que o CO2 controla o clima, precisamos da prova de que ele já fez isso anteriormente.
“Hoje mais de 97% dos cientistas estão de acordo que as mudanças climáticas são causadas pelo ser humano… Segundo o IPCC, e qualquer fonte internacional…” [01:04:15]
Aqui tornam-se necessários alguns esclarecimentos. Primeiro, não existe consenso na ciência. Segundo, o IPCC (Intergovernamental Panel of Climate Change) não é fonte primária de nenhuma afirmação científica, ele é um órgão político, criado por burocratas que indicam e selecionam os cientistas que fazem parte do órgão, cujo trabalho é referenciar estudos acadêmicos revisados, ou não, por pares. Terceiro, esses 97% não são referentes a todos os cientistas, ou a todos os "cientistas climáticos", esse número foi declarado pelo professor John Cook em 2013 [6], e faz referência a 32% de 12.000 resumos de estudo analisados e classificados subjetivamente. Pela resposta de Sacani, creio que ele não leu o estudo que declara a porcentagem, mas talvez tenha lido o sumário para políticos do IPCC (escrito por políticos, não cientistas), visto que não me recordo da citação de Cook 2013 em nenhum working group oficial do Painel, mas o mais provável é a leitura de manchetes e matérias midiáticas.
Assim como a New York Times hiperbolizou o falso consenso sobre uma era glacial em 1970, o mesmo se repetiu em 1988, quando a Newsweek declarou "All Scientists Agree" sobre o aquecimento global [7], mal hábito advindo do sensacionalismo. Misturam concordâncias e discordâncias, consensos reais e fabricados, porém acredito que dentro da comunidade científica serão identificadas as seguintes afirmações basilares, das quais eu suponho que todos os cientistas realmente concordem sobre:
- A maioria das temperaturas observadas estão aumentando desde o século XVII.
- O efeito estufa existe.
- O CO2 é um gás estufa, e sua adição na atmosfera amplifica o efeito, mesmo que em quantia negligente.
- O ser humano possuí influência no sistema climático, mas não temos capacidade de quantificá-la.
Esses pontos acima são concordâncias quase absolutas, não porque há um consenso sobre eles, mas porque foram testados a base de experimento e observação. As discordâncias emergem no quanto de influência temos, se essa influência é um problema existencial ou não, e se for, como podemos resolvê-lo. Porém esses pontos de conflito não foram quantificados por ninguém. Diversos estudos de declaração de consenso, que realizavam somente a leitura de resumos, foram publicados a partir de 2004, Sendo Naomi Oreskes a pioneira da metodologia falha [8]. Eu penso ser lamentável que haja tanto esforço da parte dos aquecimentistas para desesperadamente afirmar que a maioria concorda com eles (além de extremamente suspeito, não vemos astrônomos realizando pesquisas para mostrar que todos eles concordam que a terra é redonda). E mesmo que houvesse um consenso, esse fato não avançaria a investigação. Albert Einstein foi questionado sobre os 200 acadêmicos que não concordavam com a Relatividade, e a resposta dele é perfeita: "Por que 200? Só basta um para me provar errado". A evidência é o suficiente para o avanço da ciência, e se concordância importasse, o nome de Alfred Wegener não seria lembrado nos dias de hoje.
Não é a primeira vez que tentam impor consensos falsos visando o encerramento do debate, e quando essa agnotologia é colocada em prática temos um empecilho na investigação, pois o debate na ciência nunca acaba. O objetivo fica claro: utilizar as falsas afirmações de unanimidade como uma arma para reprimir aqueles que ousam desafiá-la. O pensamento vem a tona; "todos os cientistas concordam? Eu não quero parecer burro ao discordar…". O mesmo sentimento era invocado no início do século XX, quando a maioria dos acadêmicos não ousavam desafiar a eugenia. Discordar do movimento era motivo de piada, e significava ser submetido aos ataques de "cientistas" como Harry Laughlin (declarado pelo congresso de Washington a maior autoridade em eugenia) [9]. A maioria das universidades renomadas tiveram cursos e laboratórios dedicados ao estudo dos genes superiores, e mesmo antes do estopim da ideologia ocorrer na Alemanha, as universidades europeias já haviam expulsado todos aqueles que não eram "puros". A ideia de que a academia é o berço da sabedoria e conhecimento, e acadêmicos são os portadores da razão, desmorona inúmeras vezes ao longo da história.
Tomemos como exemplo um evento curioso do século 17: Sob a jurisdição de Salem, os nove juízes dos tribunais eram acadêmicos, cinco deles eram formados em Harvard [10], e o grande objetivo não era proteger a população da Nova Inglaterra de ameaças demoníacas, mas ter um instrumento burocrático, apoiado pelo medo do povo, para executarem pessoas inocentes das quais não gostavam. Utilizavam de jovens garotas (da mesma idade de Greta Thumberg) para acusar e determinar a sentença dos réus, visto que evidência espectral (sonhos e visões místicas), utilizada para acusar inocentes, era considerada prova indubitável na época. Ao final do século XVII os juízes fizeram seus lucros vendendo livros sobre como detectar bruxas, gerando um incentivo econômico para continuarem com os julgamentos, e punindo aqueles que questionavam as obras de "especialistas" em bruxaria, por exemplo Cotton Mather. E o motivo que deu fim a essa loucura não foi o reconhecimento da inexistência de bruxas, mas o inicio de acusações, baseadas na evidência espectral, contra a família dos próprios juízes… A ciência, como qualquer abstração criada pelo homem, é corruptível, assim como a estrutura que supostamente a abriga. Richard Lindzen, professor Emeritus do MIT na área de ciências atmosféricas, resume muito bem em seu episodio no JRE, a fragilidade de ad populum quando se trata do Método [11] "Science is not a source of authority, is a methodology, it is based on challange… and when you use it as a source of authority, you are anti-science".
“Como eu falei, 98% dos cientistas concordam, tem 2% que não vai concordar, ai o que você vai fazer é o que chamamos de cherry picking… eu vou achar pessoas dentro do corpo científico que não concordam…” [01:05:35]

Na verdade Sacani, temo dizer que o cherry picking é a ferramenta utilizada por aqueles que declaram o consenso. Passando rapidamente por uma definição de cherry picking: imagine que você está pesquisando sobre a diferença entre os carros Ford e Fiat. Para sua análise ser precisa, você deve comparar todos os modelos das duas marcas, mas supondo que você trabalhe para Ford, e queira favorecer sua contratante, o cherry picking é a trapaça ideal. Você poderia escolher apenas carros Fiat que apresentam mais defeitos quando comparados a modelos específicos da Ford, visando um resultado premeditado. Essa é a violação da lei da imparcialidade na estatística.
O estudo de Cook por exemplo, realiza três cherry pickings, sendo o primeiro a escolha das palavras chave, sublinhadas em vermelho na imagem 2. A ciência climática é uma amalgamação de dezenas de áreas do conhecimento, e ao longo do período analisado, centenas de estudos de geologia, meteorologia, oceanografia, ecologia, astrofísica, entre outros, foram publicados corroborando ou não para o chamado "consenso", e por não apresentarem as palavras chave "global climate change" e "global warming", foram ignorados. A segunda evidência de cherry picking é a classificação subjetiva, definida pelos autores desse tipo de estudo (Cook, Oreskes, Anderegg [12], etc.). Visto que a influência do homem no clima não é quantificada, há grande discordância nesse quesito, caso que provém liberdade á Cook de categorizar aqueles que atribuem influência, mesmo que pouca, ao "consenso". A terceira evidência de cherry picking é a utilização de resumos de estudos para classificar a opinião dos cientistas. O Abstract não é uma boa amostra de opinião nesse caso, e se Cook e outros fossem imparciais, utilizariam o estudo por completo, ou no mínimo, a conclusão, onde os cientistas normalmente apresentam sua interpretação dos resultados.

Esses argumentos foram discutidos pelos cientistas do clima David Legates, Willie Soon, e os matemáticos William Briggs e Conde Christopher Monckton de Brenchley [13]. Algumas evidências de que Cook classificou estudos de forma errônea foram expostas no artigo resposta desses autores. Como mostrado na imagem 3, Legates (climatólogo) e Soon (astrofísico) tiveram apenas 5 artigos considerados na análise de Cook, porém escreveram dezenas sobre o assunto entre 1991 e 2011, mas por não conterem as duas keywords, foram descartados. Além de ignorar milhares de estudos, Cook classificou opiniões equivocadamente, visto que os dois professores questionaram a hipótese do aquecimento global antropogênico em seus artigos considerados, mas foram classificados como "neutros" e "incertos". Outro exemplo foi o estudo de Liu 2009, classificado como apoiador do consenso, porém o autor sugere que o Sol tem influência significativa no clima, até em meio a era industrial… E os erros de classificação continuam. Essa análise foi iniciada uma semana após o lançamento de Cook 2013. Os quatro autores verificaram os dados brutos [14] e recalcularam as porcentagens das opiniões (NOTA 1: a metodologia de classificação de opiniões de Cook foi mantida). Segue a diferença entre os resultados de Cook et al. (97.1% concordam com a definição de consenso) e Legates et al. (1,59% concordam com a definição de consenso):



Independente de quem acertou na conta, a invocação de consenso é pura propaganda, e um desvio inconveniente dos argumentos lógicos. Unanimidade é determinante em discussões políticas, não científicas, porém esses estudos tratam da ciência como se fosse decidida via democracia, um efeito colateral da politização da ciência. Uma boa análise desse paralelo é encontrada em Global Warming and Eugenics [9 ibid], onde Lindzen argumenta que a relação atual entre a ciência, grupos ideológicos e líderes burocratas, se mostra análoga a decretação dos atos restritivos imigratórios de 1924, regidos a partir dos ideais eugenistas de raça superior e preservação da qualidade genética. Mesmo sendo um claro espúrio, grandes jornais, políticos e acadêmicos suportaram essa narrativa, sob a justificativa "nobre" de preservar a inteligência das futuras gerações, ameaçada pela poluição estrangeira. A credibilidade que a ciência carrega é irresistível aos políticos, enquanto o dinheiro presente no poder público se torna um atrativo interessante para a academia. E uma vez que essa interação é posta em prática, e a roda começa a girar, o questionamento é visto como ameaça.
A evidência é a massiva multiplicação em 15 vezes dos fundos de pesquisa do clima direcionados às universidades (onde mais de 50% é destinado a administração se corpos governamentais provém os recursos) a partir de 1990. Aqueles políticos que decidem sobre o fundo pré-determinam os resultados das pesquisas, e são recompensados com a aprovação de leis sobre a indústria energética, suportadas pelos resultados advindos dos mesmos cientistas que contrataram. E como camada de proteção, exigem estudos que cavem qualquer número calculado em qualquer canto, com o objetivo de conseguir transformar uma quantidade significativa de acadêmicos, em 3%. A interação que ao início do século XX envolveu a ciência genética, membros do congresso e o movimento eugenista, hoje toma a forma de ciência climática, políticos nacionais e burocratas da ONU, e grupos ambientalistas, sobre a "nobre" justificativa de preservar a vida de nossos filhos e netos, que mesmo antes de existirem, estão ameaçados pela "poluição" do CO2…
Bibliografia
[2]. Dicionário Aurélio: conjunto de todas as condições meteorológicas (temperatura, pressão e ventos, umidade e chuvas) características do estado médio da atmosfera em um ponto da superfície terrestre
[3]. Shaviv, N. J. & Veizer, J. Celestial driver of Phanerozoic climate? GSA Today 13, 4–10 (2003).
[4]. Veizer, J., Ala, D., Azmy, K., Bruckschen, P., Buhl, D., Bruhn, F., Carden, G.A.F., Diener, A., Ebneth, S., Goddéris, Y., Jasper, T., Korte, C., Pawellek, F., Podlaha, O.G., and Strauss, H., 1999, 87Sr/86Sr, δ13C and δ18O evolution of Phanerozoic sea water: Chemical Geology, v. 161, p. 59–88.
[5]. GEOCARBIII: A REVISED MODEL OF ATMOSPHERIC CO2 OVER PHANEROZOIC TIME. ROBERT A. BERNER and ZAVARETH KOTHAVALA. American Journal of Science, Vol. 301, February, 2001, P.182–204
[6]. Cook J, Nuccitelli D, Green SA, Richardson M, Winkler B, Painting R, Way R, Jacobs P and Skuce A 2013 Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature Environ. Res. Lett. 8 024024
[7]. Newsweek July 11, 1988 (THE GREENHOUSE EFFECT - DANGER: MORE HOT SUMMERS AHEAD, VOLUME CXII, NO. 2)
[8]. Oreskes N 2004 Beyond the ivory tower. The scientific consensus on climate change. Science 306 1686
[9]. Richard S. Lindzen. Science and Politics: Global Warming and Eugenics (1995). From Risks, Costs, and Lives Saved, R.W. Hahn, editor, Oxford University Press, New York, 1996.
[10]. https://salem.lib.virginia.edu/swp-intro.html
[11]. Joe Rogan Experience #2397 - Richard Lindzen & William Happer https://www.youtube.com/watch?v=Zt32chvO_iY
[12]. Anderegg W R L, Prall J W, Harold J and Schneider S H 2010 Expert credibility in climate change Proc. Natl Acad. Sci. USA 107 12107–9
[13]. David R. Legates, Willie Soon, William M. Briggs, Christopher Monckton of Brenchley. Climate Consensus and ‘Misinformation’: A Rejoinder to Agnotology, Scientific Consensus, and the Teaching and Learning of Climate Change. Sci & Educ (2015) 24:299–318
[14]. Dados Cook 2013 https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/8/2/024024/data
