“Minha quarta afirmação é: as mudanças climáticas existem… e são causadas por humanos” [01:03:25]

Minha primeira afirmação é: "as mudanças climáticas existem… e isso é uma tautologia". A característica dinâmica do sistema Clima está contida em qualquer definição do conceito, visto que existem diversas [2]. Afirmar que o clima muda é equivalente a afirmar que peixes nadam. Porém a atribuição da mudança aos humanos é, no mínimo, complicada. Mas iniciamos em concordância, o clima muda, sempre mudou, e mesmo que um dia deixemos de existir, continuará mudando. Essa afirmação é válida porque temos a possibilidade de investigar o clima do passado, a partir de diversas fontes, e não há nada novo de baixo do sol, similar ao clima do presente, está sempre esquentando ou esfriando, mas nunca estável. 

Dentre as fontes que nos permitem enxergar o passado, a mais confiável é a instrumental (termoscópio, termômetro, etc.), mas é recente e cobre somente mudanças locais. Além da medida direta de temperatura, temos as proxies, registros independentes e empíricos acumulados ao longo do tempo. Essa área de estudo chama-se paleoclimatologia; analisa-se evidências geológicas e composição química de anéis de árvore, estratos de gelo, pedaços de rochas, fósseis de plantas e animais, etc. São inferiores a termômetros, mas ajudam na calibração, e podemos estimar as condições climáticas de bilhões de anos atrás. A terceira fonte de reconstrução (e minha preferida) é a Climatografia: a técnica estima a temperatura e quadro meteorológico de regiões diversas a partir de evidências e registros históricos: sítios arqueológicos, registros agrícolas, registros fenológicos, anotação de datas de quebra e congelamento lacustre, dados portuários, cartas, crônicas, pinturas, diários de bordo etc. Esse tipo de fonte é utilizada para averiguarmos a confiabilidade das evidências paleoclimáticas. 

Portanto, temos noção de como era o clima antes e depois do surgimento da raça humana. E aqui cabe a primeira questão: Antes de nós, o clima não mudava? A resposta é óbvia, mudava de forma tão brusca e variável quanto hoje, sem nenhuma contribuição de nossa existência.

 Em 2003 o ganhador do prêmio "Young Scientist of the Year", o astrofísico da Universidade Hebraica de Jerusalém, Nir Shaviv, publicou junto do proeminente geólogo Jan Veizer [3], um estudo que comparava reconstruções de temperatura e CO2 nos últimos 545 milhões de anos (Imagem 1). Esse artigo é importante para nosso texto pois o dióxido de carbono é considerado o maior agente do aquecimento global antropogênico, e é de suma importância verificarmos seu histórico antes de o condenar. Árthur Conan Doyle expressa através de seu personagem mais famoso uma grande cautela requisitada na investigação: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” S.H.

Reconstruções paleoclimáticas de temperatura e CO2 atmosférico nos últimos 540 milhões de anos (Shaviv & Veizer, 2003)
imagem 1 [3 ibid]

Nota-se claramente pelas curvas de baixo [3/6 , 5/10] (Isótopos de Oxigênio 18 calculados a partir de fósseis marinhos) [4], indicando temperatura dos oceanos, que a variabilidade climática se fez presente em tempos frios e quentes, e se correlaciona muito mal com as curvas de CO2 [GEOCARB III] (curvas de cima, calculadas a partir de fósseis de plantas e solos antigos) [5]. Haviam tempos em que a concentração de CO2 na atmosfera era 10 vezes maior que a atual (períodos Ordoviciano, Siluriano, e Jurássico), e mesmo assim o planeta congelou por completo. E o contrário também ocorreu, níveis de dióxido de carbono em queda, e temperaturas em ascensão (Carbonífero, Cretáceo…). Essa evidência deve levantar a segunda questão: "Qual o período histórico, e em que lugar do globo, o CO2 já regeu as temperaturas terrestres?". Se essa correlação foi insignificante nos últimos milhões de anos, por que hoje a seria a causa? Para afirmarmos que o CO2 controla o clima, precisamos da prova de que ele já fez isso anteriormente.

“Hoje mais de 97% dos cientistas estão de acordo que as mudanças climáticas são causadas pelo ser humano… Segundo o IPCC, e qualquer fonte internacional…” [01:04:15]

Aqui tornam-se necessários alguns esclarecimentos. Primeiro, não existe consenso na ciência. Segundo, o IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change) não é fonte primária de nenhuma afirmação científica, ele é um órgão político, criado por burocratas que indicam e selecionam os cientistas que fazem parte do órgão, cujo trabalho é referenciar estudos acadêmicos revisados, ou não, por pares. Terceiro, esses 97% não são referentes a todos os cientistas, ou a todos os "cientistas climáticos", esse número foi declarado por John Cook em 2013 [6], e faz referência a 32% de 12.000 resumos de estudos analisados e classificados subjetivamente. Pela resposta de Sacani "qualquer fonte internacional", creio que ele não leu o estudo que declara a porcentagem, mas talvez tenha lido o sumário para policymakers do IPCC (escrito por políticos, não cientistas), visto que não me recordo da citação de Cook 2013 em nenhum working group oficial do Painel, mas o mais provável é a leitura de manchetes e matérias midiáticas

Assim como o New York Times hiperbolizou o falso consenso sobre uma era glacial em 1970, o mesmo se repetiu em 1988, quando a Newsweek declarou "All Scientists Agree" sobre o aquecimento global [7], mau hábito advindo do sensacionalismo e que segue desde então. Misturam concordâncias e discordâncias, consensos reais e fabricados, porém acredito que dentro da comunidade científica serão identificadas as seguintes afirmações basilares, das quais eu suponho que todos os cientistas concordam sobre:

  • A maioria das séries de temperatura observadas estão em alta desde o século XVII.
  • O efeito estufa existe.
  • O CO2 é um gás estufa, e sua adição na atmosfera amplifica o efeito, mesmo que em magnitude desprezível.
  • O ser humano possui influência no sistema climático, mas não somos capazes de quantificá-la.

Esses pontos acima são concordâncias quase absolutas, não porque há um consenso sobre eles, mas porque foram testados via experimento e observação. As discordâncias emergem no quanto de influência temos, se essa influência é um problema existencial ou não, e se for, como podemos resolvê-lo. Porém esses pontos de conflito não foram quantificados por ninguém. Diversos estudos de declaração de consenso, que realizavam somente a leitura de resumos, foram publicados a partir de 2004 por Naomi Oreskes, a pioneira da metodologia falha [8]. Eu penso ser lamentável que haja tanto esforço da parte dos aquecimentistas para desesperadamente afirmar que a maioria concorda com eles (além de extremamente suspeito, não vemos astrônomos realizando pesquisas para mostrar que todos eles concordam que a terra é redonda). E mesmo que houvesse um consenso, esse fato é insignificante para a investigação. Albert Einstein foi questionado sobre os 200 acadêmicos que não concordavam com a Relatividade, e sua resposta sintetiza a ciência: "Por que 200? Só basta um para me provar errado". A evidência é a única chave para o avanço do conhecimento, e se concordância importasse, o nome de Alfred Wegener seria esquecido.

Impor consensos falsos visando o encerramento do debate não é novidade, e quando essa prática é executada temos um empecilho na investigação, pois o debate na ciência nunca acaba. O objetivo fica claro: utilizar as falsas afirmações de unanimidade como uma arma para reprimir aqueles que ousam desafiá-la. O pensamento vem a tona; "todos os cientistas concordam? Eu não quero parecer burro ao discordar…". O mesmo sentimento era invocado no início do século XX, quando a maioria dos acadêmicos não questionavam a eugenia. Discordar do movimento era motivo de piada, e significava ser submetido aos ataques de "cientistas" como Harry Laughlin (declarado pelo congresso de Washington a maior autoridade global em eugenia) [9]. A maioria das universidades renomadas mantiveram cursos e laboratórios dedicados ao estudo dos genes "superiores", e mesmo antes do partido Nacional Socialista assumir a Alemanha, as universidades europeias já haviam expulsado todos aqueles que não eram "puros". A ideia de que a academia é o berço da sabedoria e conhecimento, e acadêmicos são os portadores da razão, desmorona inúmeras vezes ao longo da história. 

Tomemos como exemplo um evento curioso do século 17: Sob a jurisdição de Salem, os nove juízes dos tribunais eram acadêmicos, cinco deles eram formados em Harvard [10], e o grande objetivo não era proteger a população da Nova Inglaterra de ameaças demoníacas, mas ter um instrumento burocrático, apoiado pelo medo do povo, para executarem pessoas inocentes das quais não gostavam. Utilizavam de jovens garotas (da mesma idade de Greta Thunberg) para acusar e determinar a sentença dos réus, visto que evidência espectral (sonhos e visões místicas), utilizada para acusar inocentes, era considerada prova indubitável na época. Ao final do século XVII os juízes fizeram seus lucros vendendo livros de detecção de bruxas, gerando um incentivo econômico para continuarem com os julgamentos, e punindo aqueles que questionavam as obras de Cotton Mather, um "especialista" em bruxaria. E o motivo que deu fim a essa loucura não foi o reconhecimento da inexistência de bruxas, mas o início de acusações, baseadas na evidência espectral, contra a família dos próprios juízes… A ciência, como qualquer abstração criada pelo homem, é corruptível, assim como a estrutura que supostamente a abriga. 

Apenas podemos especular os motivos dessa falha recorrente da instituição, mas seria mera suposição. Algumas tentativas de explicar esse fenômeno são bem interessantes, e vamos discutir uma em particular na próxima sessão, de autoria de Richard Lindzen, professor Emérito do MIT na área de ciências atmosféricas, que traça um feedback loop entre três agentes significativos nesse debate. Se sua hipótese é coerente ou não, pouco importa, pois o dano causado pelas declarações de consenso reverberam sobre a ciência climática, e atrasam o explorar de suas fronteiras em pelo menos duas gerações. Lindzen resume muito bem em seu episódio no JRE (Joe Rogan Experience) a fragilidade do ad populum quando se trata do Método [11] "Science is not a source of authority, is a methodology, it is based on challenge… and when you use it as a source of authority, you are anti-science"

“Como eu falei, 98% dos cientistas concordam, tem 2% que não vai concordar, ai o que você vai fazer é o que chamamos de cherry picking… eu vou achar pessoas dentro do corpo científico que não concordam…” [01:05:35]

Cook 2013 - palavras chave sublinhadas
Imagem 2 [6 ibid]

Na verdade Sacani, temo dizer que o cherry picking é a ferramenta utilizada por aqueles que declaram o consenso. Passando rapidamente por uma definição de cherry picking: imagine que você está pesquisando sobre a diferença entre os carros Ford e Fiat. Para sua análise ser precisa, você deve comparar todos os modelos das duas marcas, mas supondo que você trabalhe para Ford, e queira favorecer sua contratante, o cherry picking é a trapaça ideal. Você poderia escolher apenas carros Fiat que apresentam mais defeitos quando comparados a modelos específicos da Ford, visando um resultado premeditado. 

O estudo de Cook por exemplo, realiza três cherry pickings, sendo o primeiro a escolha das palavras chave, sublinhadas em vermelho na imagem 2. A ciência climática é uma amalgamação de dezenas de áreas do conhecimento, e ao longo do período analisado, centenas de estudos de geologia, meteorologia, oceanografia, ecologia, astrofísica, entre outros, foram publicados corroborando ou não para o chamado "consenso", e por não apresentarem as palavras chave "global climate change" e "global warming", foram ignorados. A segunda evidência de cherry picking é a classificação subjetiva, definida pelos autores desse tipo de estudo (Cook, Oreskes, Anderegg [12], etc.). Visto que a influência do homem no clima não é quantificada, há grande discordância nesse quesito, o que dá liberdade a Cook de categorizar aqueles que atribuem influência, mesmo que pouca, ao "consenso". A terceira evidência de cherry picking é a utilização de resumos de estudos para classificar a opinião dos cientistas. O Abstract não é uma boa amostra de opinião nesse caso, e se Cook e outros fossem imparciais, utilizariam o estudo por completo, ou no mínimo, a conclusão, onde os cientistas normalmente apresentam sua interpretação dos resultados.

Legates et al. - papers de Legates e Soon considerados por Cook
Imagem 3 [13 ibid]

Esses argumentos foram discutidos pelos cientistas do clima David Legates, Willie Soon, e os matemáticos William Briggs e o Visconde Christopher Monckton de Brenchley [13]. Algumas evidências de que Cook classificou estudos de forma errônea foram expostas no artigo resposta desses autores. Como mostrado na imagem 3, Legates (climatólogo) e Soon (astrofísico) tiveram apenas 5 artigos considerados na análise de Cook, porém escreveram dezenas sobre o assunto entre 1991 e 2011, mas por não conterem as duas keywords, foram descartados. Além de ignorar milhares de estudos, Cook classificou opiniões equivocadamente, visto que os dois professores questionaram a hipótese do aquecimento global antropogênico em seus artigos considerados, mas foram classificados como "neutros" e "incertos". Outro exemplo foi o estudo de Liu 2009, classificado como apoiador do consenso, porém o autor sugere que o Sol tem influência significativa no clima, até em meio a era industrial… E os erros de classificação continuam. Essa reanálise foi iniciada uma semana após o lançamento de Cook 2013. Os quatro autores verificaram os dados brutos [14] e recalcularam as porcentagens das opiniões (NOTA 1: a metodologia de classificação de opiniões de Cook foi mantida). Segue a diferença entre os resultados de Cook et al. (97.1% concordam com a definição de consenso) e Legates et al. (1,59% concordam com a definição de consenso):

Cook. Imagem 4 [6 ibid]
Cook - categorias de classificação
Cook. Imagem 5
Cook - resultados
Legates. Imagem 6 [13 ibid]
Legates - resultados recalculados

Independente de quem acertou na conta, a invocação de consenso é pura propaganda e um desvio inconveniente dos argumentos lógicos. Unanimidade é determinante em discussões políticas, e esses estudos tratam da ciência como se fosse decidida via democracia, um efeito colateral da politização de questões científicas. Uma boa análise desse paralelo é encontrada em Global Warming and Eugenics [9 ibid], onde Lindzen argumenta que a relação atual entre a ciência, grupos ideológicos e líderes burocratas, se mostra análoga a decretação dos atos restritivos imigratórios de 1924, regidos a partir dos ideais eugenistas de raça superior e preservação da qualidade genética. Mesmo sendo um claro espúrio, grandes jornais, políticos e acadêmicos suportaram essa narrativa, sob a "nobre" justificativa de preservar a inteligência das futuras gerações, ameaçada pela poluição estrangeira. A credibilidade que a ciência carrega é irresistível aos políticos, enquanto o dinheiro presente no poder público se torna um atrativo interessante para a academia. E uma vez que essa interação é posta em prática, e a roda começa a girar, o questionamento é visto como ameaça.

A evidência é a multiplicação dos fundos de pesquisa do clima em 15 vezes a partir de 1990, onde mais de 50% é destinado a administração se corpos governamentais proveem os recursos. Aqueles políticos que decidem o fundo pré-determinam os resultados das pesquisas, e são recompensados com a aprovação de leis que regulamentam a indústria energética, suportadas pelos resultados advindos dos mesmos cientistas que contrataram. E como camada de proteção, exigem estudos que cavem qualquer número calculado em qualquer canto, com o objetivo de conseguir transformar uma quantidade significativa de acadêmicos, em 3%. A interação que ao início do século XX envolveu a ciência genética, membros do congresso e o movimento eugenista, hoje toma a forma de ciência climática, políticos nacionais e burocratas da ONU, e grupos ambientalistas, sob a "nobre" justificativa de preservar a vida de nossos filhos e netos, que mesmo antes de existirem, estão ameaçados pela "poluição" do CO2…

Bibliografia

[2]. Dicionário Aurélio: conjunto de todas as condições meteorológicas (temperatura, pressão e ventos, umidade e chuvas) características do estado médio da atmosfera em um ponto da superfície terrestre

[3]. Shaviv, N. J. & Veizer, J. Celestial driver of Phanerozoic climate? GSA Today 13, 4–10 (2003).

[4]. Veizer, J., Ala, D., Azmy, K., Bruckschen, P., Buhl, D., Bruhn, F., Carden, G.A.F., Diener, A., Ebneth, S., Goddéris, Y., Jasper, T., Korte, C., Pawellek, F., Podlaha, O.G., and Strauss, H., 1999, 87Sr/86Sr, δ13C and δ18O evolution of Phanerozoic sea water: Chemical Geology, v. 161, p. 59–88.

[5]. GEOCARBIII: A REVISED MODEL OF ATMOSPHERIC CO2 OVER PHANEROZOIC TIME. ROBERT A. BERNER and ZAVARETH KOTHAVALA. American Journal of Science, Vol. 301, February, 2001, P.182–204

[6]. Cook J, Nuccitelli D, Green SA, Richardson M, Winkler B, Painting R, Way R, Jacobs P and Skuce A 2013 Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature Environ. Res. Lett. 8 024024

[7]. Newsweek July 11, 1988 (THE GREENHOUSE EFFECT - DANGER: MORE HOT SUMMERS AHEAD, VOLUME CXII, NO. 2)

[8]. Oreskes N 2004 Beyond the ivory tower. The scientific consensus on climate change. Science 306 1686

[9]. Richard S. Lindzen. Science and Politics: Global Warming and Eugenics (1995). From Risks, Costs, and Lives Saved, R.W. Hahn, editor, Oxford University Press, New York, 1996.

[10]. https://salem.lib.virginia.edu/swp-intro.html

[11]. Joe Rogan Experience #2397 - Richard Lindzen & William Happer https://www.youtube.com/watch?v=Zt32chvO_iY

[12]. Anderegg W R L, Prall J W, Harold J and Schneider S H 2010 Expert credibility in climate change Proc. Natl Acad. Sci. USA 107 12107–9

[13]. David R. Legates, Willie Soon, William M. Briggs, Christopher Monckton of Brenchley. Climate Consensus and ‘Misinformation’: A Rejoinder to Agnotology, Scientific Consensus, and the Teaching and Learning of Climate Change. Sci & Educ (2015) 24:299–318

[14]. Dados Cook 2013 https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/8/2/024024/data